Colisão de empilhadeira e Catástrofe


Por Que Válvulas de Isolamento Remoto e Estruturas à Prova de Fogo são importantes na Segurança de Processo

O caso Formosa Plastics (CSB, 2005) mostra como a ausência de isolamento remoto e fireproofing pode transformar um impacto de empilhadeira em um incêndio de 5 dias. Veja as lições práticas.


⚠️ Introdução: O Preço da Vulnerabilidade

Sua planta industrial está realmente preparada para evitar que um pequeno acidente se torne um incêndio de grandes proporções?
O caso da Formosa Plastics Corporation USA, em Point Comfort (Texas, EUA), demonstra como falhas de projeto aparentemente triviais — ausência de isolamento remoto, estruturas sem fireproofing e falta de proteção contra impacto veicular — podem amplificar um evento banal em uma catástrofe prolongada.

Em 6 de outubro de 2005, um simples impacto de veículo em uma válvula de tubulação resultou em uma explosão de propileno líquido, chamas superiores a 150 metros e cinco dias de incêndio contínuo.
O evento feriu 14 trabalhadores, danificou profundamente a unidade e forçou o shutdown completo da planta por cinco meses, afetando inclusive comunidades próximas, que precisaram adotar medidas de abrigo (shelter in place).

A análise conduzida pelo U.S. Chemical Safety Board (CSB) revelou falhas críticas de projeto relacionadas à integridade mecânica e contenção, gerando lições duras para engenheiros e gestores de processo.


Desenvolvimento: A Sequência Crítica de Falhas de Projeto

1️⃣ O Evento Iniciador: Falta de Isolamento Remoto

O evento começou quando uma empilhadeira rebocando um trailer de cilindros atingiu uma válvula de um strainer em uma linha pressurizada contendo propileno líquido.
O impacto arrancou a válvula, abrindo uma seção de 5 cm de diâmetro — o suficiente para jorrar grandes volumes do fluido inflamável.

O operador de área notificou imediatamente a sala de controle, que iniciou o desligamento e o desvio de gases para o sistema de flare.
Entretanto, a rápida formação de uma nuvem inflamável de grande volume forçou a evacuação da equipe de campo antes que o isolamento pudesse ser feito manualmente.

⚠️ O projeto não dispunha de válvulas automáticas ou remotamente acionadas, impossibilitando o bloqueio do fluxo de propileno a partir da torre de destilação.
Resultado: a liberação continuou descontrolada até o esgotamento parcial do sistema.

🔹 Lição técnica: sem válvulas de isolamento automático, os operadores ficam impossibilitados de interromper liberações de grande escala — especialmente em cenários com risco de ignição secundária.


2️⃣ A Falha no Fireproofing e o Colapso Estrutural

Poucos minutos após a liberação, a nuvem inflamável encontrou uma fonte de ignição.
A explosão e o incêndio subsequente atingiram temperaturas capazes de comprometer estruturas metálicas próximas.

A investigação do CSB constatou que apenas parte das colunas e vigas — protegidas com concreto projetado (fireproofing) conforme o projeto original da Kellogg Brown and Root — resistiu às chamas.
Por outro lado, a estrutura que suportava o sistema de flare estava sem proteção térmica.

O calor extremo causou colapso dessa estrutura, deformando as tubulações que alimentavam o flare e provocando sua falha total.
Sem o flare, gases pressurizados que deveriam ser queimados de forma controlada passaram a escapar livremente, realimentando o incêndio.

🔥 Consequência: incêndio fora de controle por cinco dias, exigindo mais de 7 milhões de galões de água para resfriamento de vasos e equipamentos adjacentes.

🔹 Lição técnica: a perda do flare — um sistema de segurança vital — demonstra que estruturas críticas devem sempre receber proteção passiva adequada, conforme normas como API 2218 e NFPA 30.


3️⃣ Proteção Contra Impacto Veicular e Segurança Pessoal

O CSB concluiu que a colisão poderia ter sido evitada com proteções físicas adequadas, como bollards ou barreiras de concreto.
Além disso, observou-se que nenhum dos trabalhadores queimados utilizava Vestimenta Resistente à Chama (FRC), mesmo atuando em área com risco de flash fire.

O relatório formal do CSB gerou recomendações para a Formosa, a Kellogg Brown and Root (empresa de engenharia) e o Center for Chemical Process Safety (CCPS), com foco em:

  1. Proteção contra impacto veicular:
    • Instalar barreiras físicas permanentes (como concrete posts ou defensas metálicas) para proteger válvulas e tubulações expostas.
    • Avaliar a frequência e tipo de tráfego industrial nas proximidades de equipamentos críticos.
  2. Fireproofing de estruturas críticas:
    • Revestir com material à prova de fogo todas as estruturas que suportam sistemas de alívio, flare ou vasos pressurizados.
    • Revisar periodicamente a integridade do fireproofing e sua aderência conforme recomendações da API 2218 e CCPS (2003).
  3. Válvulas de isolamento automático e remoto:
    • Incorporar sistemas de isolamento motorizado ou pneumático capazes de serem acionados da sala de controle.
    • Realizar estudos de LOPA (Layer of Protection Analysis) para definir pontos estratégicos de bloqueio.
  4. Proteção do pessoal:
    • Tornar obrigatório o uso de FRC em áreas de processo com potencial de liberação de gases inflamáveis ou líquidos combustíveis.
    • Reforçar treinamentos sobre rotas de fuga e procedimentos de isolamento de emergência.

🧠 Conclusão: Análise de Risco Proativa e Engenharia de Contenção

O acidente de Formosa Plastics é um lembrete inequívoco de que a segurança de processo não falha apenas na operação — ela falha no projeto.
Cada vulnerabilidade ignorada, seja uma válvula manual ou uma estrutura sem fireproofing, representa um elo fraco que pode transformar um pequeno impacto em uma catástrofe química.

🚨 A verdadeira defesa contra a escalada de eventos está no projeto preventivo e nas salvaguardas ativas e passivas integradas desde o design.

Ações recomendadas:

  • Revise seus sistemas de isolamento e considere válvulas automáticas e controladas remotamente.
  • Avalie a proteção passiva (fireproofing) em estruturas críticas, especialmente as que suportam linhas de segurança.
  • Atualize suas análises de perigos (PHA/LOPA) para incluir cenários de impacto veicular e perda de sistemas de alívio.
  • Garanta que o uso de FRC seja padrão em áreas de risco de flash fire.

A segurança de processo deve evoluir continuamente, aprendendo com os eventos passados para eliminar falhas recorrentes. Ignorar o básico é o primeiro passo rumo ao desastre.


📚 Referências

  • CSB – U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation Board.
    CSB Safety Video: Propylene Fire and Explosions (Formosa Plastics Corporation, Point Comfort, Texas).
    Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=F01y8d5O4gQ
  • CCPS (Center for Chemical Process Safety).
    Guidelines for Fire Protection in Chemical, Petrochemical, and Hydrocarbon Processing Facilities.
    AIChE, 2003.
  • API 2218.
    Fireproofing Practices in Petroleum and Petrochemical Processing Plants.
    American Petroleum Institute, 2016.

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