O caso Barton Solvents mostrou que o aterramento padrão não evita explosões causadas por eletricidade estática em líquidos não condutores. Descubra por que práticas básicas falham — e como engenheiros de processo podem eliminar esse risco invisível.
⚡ Introdução: Quando o Básico Falha — e o Custo é Devastador
Sua equipe confia cegamente no protocolo de aterramento e interligação durante a transferência de líquidos inflamáveis?
Em 17 de julho de 2007, essa confiança foi fatal na Barton Solvents (Kansas, EUA). Uma explosão massiva de VM&P Naphtha destruiu o parque de tanques, forçou a evacuação de 6.000 pessoas e lançou tampas metálicas a centenas de metros de distância.
A investigação do U.S. Chemical Safety Board (CSB) revelou algo alarmante:
Mesmo com aterramento e interligação corretos, o sistema falhou — porque o líquido envolvido era não condutor, e o protocolo padrão simplesmente não bastava.
Mais do que um acidente, o caso expôs uma lacuna sistêmica no entendimento sobre eletricidade estática em líquidos inflamáveis.
O Que Realmente Aconteceu: A Faísca Invisível
O tanque envolvido armazenava cerca de 15.000 galões de VM&P Naphtha, um líquido inflamável e eletricamente não condutor.
Durante o enchimento:
- O fluxo turbulento do líquido e a entrada de ar geraram cargas estáticas significativas.
- O nível era medido por um flutuador metálico ligado por uma fita de medição aterrada.
- Essa ligação, porém, era mecânica e intermitente — permitindo que o flutuador se desconectasse eletricamente do terra.
- Quando a carga acumulada se dissipou em forma de faísca eletrostática, a mistura vapor-ar dentro do tanque estava exatamente dentro da faixa de inflamabilidade.
O resultado: uma explosão seguida de incêndio total.
💡 Falhas ocultas em componentes simples, como flutuadores, podem anular o aterramento efetivo — e não são detectáveis por inspeções visuais rotineiras.
O Perigo dos Líquidos Não Condutores
1️⃣ Acúmulo e Dissipação Lenta de Carga
Líquidos como Naphtha, heptano, tolueno e xileno têm baixa condutividade elétrica, o que significa que a carga gerada por atrito ou turbulência não se dissipa rapidamente — mesmo com o tanque aterrado.
Esses líquidos possuem alto tempo de relaxamento elétrico, ou seja, podem acumular carga por longos períodos até que uma descarga ocorra.
2️⃣ Misturas na Faixa Ideal de Inflamabilidade
Enquanto líquidos extremamente voláteis (como gasolina) produzem misturas muito ricas para inflamar dentro do tanque, os solventes menos voláteis permanecem na faixa ideal de inflamabilidade à temperatura ambiente.
Isso os torna alvos perfeitos para ignição por eletricidade estática.
O Fracasso dos MSDS: A Crise de Informação que Custa Caro
O CSB descobriu que o MSDS (Material Safety Data Sheet) do produto não alertava adequadamente sobre o risco estático.
E o problema é generalizado:
- A maioria dos MSDSs de líquidos não condutores não recomenda medidas além do aterramento e interligação padrão.
- Apenas 3 em 62 fichas avaliadas incluíam dados de condutividade elétrica.
- Apenas 1 alertava sobre o risco de mistura vapor-ar inflamável dentro de tanques.
🧾 Segundo o CSB (2009), essa falha na comunicação técnica é uma das principais causas de complacência e de eventos de ignição estática em plantas industriais.
Como Eliminar o Risco: Recomendações Técnicas do CSB
O aprendizado da Barton Solvents reforça que segurança de processo exige ir além do básico.
As medidas recomendadas incluem:
- Flutuadores seguros: substituir sistemas com ligações flexíveis soltas por conexões permanentes e verificáveis.
- Controle de atmosfera: inertizar tanques com nitrogênio para eliminar oxigênio e evitar misturas inflamáveis.
- Controle de fluxo: reduzir a velocidade de bombeamento de líquidos não condutores.
- Aditivos antiestáticos: considerar o uso de agentes dissipativos em líquidos de baixa condutividade.
- MSDS revisado: exigir que fornecedores incluam dados de condutividade e potencial de ignição estática nos documentos de segurança.
🧠 Conclusão: Entender o Invisível é o Verdadeiro Aterramento
A tragédia da Barton Solvents não foi causada pela ausência de aterramento — mas pela falsa sensação de segurança de um protocolo aplicado fora de contexto.
A eletricidade estática é invisível, mas suas consequências são explosivas.
Segurança de processo não se resume a seguir normas: é entender profundamente por que elas existem e onde deixam de ser suficientes.
🔍 Referência
U.S. Chemical Safety and Hazard Investigation Board (CSB). Static Sparks Explosion in Kansas (Barton Solvents Incident).
Disponível em: YouTube – CSB Safety Video.
