Falha Terminal: 5 Erros Críticos que Transformaram um Vazamento de Bomba em um Desastre de US$ 150 Milhões

Engenheiro, pare e pense: Seu programa de segurança de processo é forte o suficiente para evitar que uma simples falha mecânica se transforme em uma catástrofe que dure três dias e cause danos ambientais massivos?

O incêndio ocorrido em 17 de março de 2019 no terminal de armazenamento de líquidos a granel da International Terminals Company (ITC) em Deer Park, Texas, é um estudo de caso sombrio. Ele custou mais de US$ 150 milhões em danos à propriedade e colocou a comunidade local em risco sério. Este desastre não foi causado por um único erro, mas sim por uma sequência alarmante de cinco falhas sistêmicas que a Agência de Segurança Química dos EUA (CSB) identificou.

Atenção: Se sua instalação armazena grandes volumes de líquidos inflamáveis, você precisa analisar esses pontos. O que a ITC deixou de fazer pode estar acontecendo em sua planta agora.

Introdução: A Faísca de uma Catástrofe

O incidente começou de forma relativamente simples: a falha catastrófica de uma bomba de circulação em um tanque de armazenamento atmosférico (Tanque 80-8), que continha um produto inflamável (butano-enriquecido Naphtha).

A bomba permaneceu ligada durante a noite, e, por volta das 7h25min do dia 17 de março, dados indicaram mudanças nos parâmetros operacionais. O problema escalou rapidamente: o rolamento (bearing) no lado do motor do eixo da bomba falhou, causando desalinhamento e vibrações significativas. Essas vibrações soltaram as porcas de fixação da vedação mecânica (gland nuts), permitindo que o líquido inflamável escapasse. Por volta das 9h45min, a vedação mecânica falhou completamente, liberando ainda mais líquido.

Sem intervenção, os vapores inflamáveis se acumularam em áreas baixas. Às 10h00min, esses vapores inflamaram, resultando em um incêndio maciço que a ITC não conseguiu isolar. O fogo se espalhou para 14 outros tanques na mesma área de contenção, queimando por três dias.

A CSB investigou e concluiu que o incidente e sua gravidade foram resultado direto de cinco sérias lacunas de segurança.

Desenvolvimento: Os Cinco Pilares da Falha no Terminal ITC

As deficiências identificadas pela CSB não eram apenas falhas operacionais, mas sim lacunas profundas em programas de gestão e projeto.

1. Falha na Integridade Mecânica (MI) da Bomba

A Integridade Mecânica é a gestão de equipamentos críticos para garantir que sejam projetados, instalados, operados e mantidos adequadamente.

O problema: A CSB descobriu que a ITC possuía um procedimento de MI, mas este não listava requisitos específicos de manutenção preventiva, treinamento para substituição ou reconstrução de bombas.

A exclusão: Mais gravemente, o procedimento de MI da empresa se aplicava apenas a equipamentos que lidavam com produtos listados como “produtos químicos regulamentados”. Como o Naphtha e o Butano não estavam nessa lista, o Tanque 80-8 e sua bomba associada estavam isentos do procedimento formal de Integridade Mecânica.

O resultado: Um programa proativo de MI para todas as bombas em serviço de produtos altamente perigosos poderia ter identificado e corrigido os problemas da bomba de circulação antes de sua falha catastrófica.

2. Ausência de Sistemas de Detecção de Gás Inflamável

A detecção de gás ou vapor é essencial para alertar sobre concentrações anormais, permitindo ações antes que ocorra um incêndio ou explosão.

O problema: O terminal da ITC não possuía monitores (como monitores de gás inflamável ou monitores de vibração de equipamentos) que pudessem ter alertado os operadores sobre o problema.

A omissão: Em 2014, uma equipe de avaliação de perigos havia recomendado a instalação de um sistema de detecção de gás inflamável perto do Tanque 80-8, mas a CSB descobriu que a ITC não implementou essa recomendação nem documentou o motivo da não instalação.

O resultado: Sem alarmes, o vazamento de líquido inflamável continuou sem que ninguém percebesse ou tentasse pará-lo por aproximadamente 30 minutos antes da ignição. A CSB recomenda que terminais que lidam com grandes volumes de substâncias altamente perigosas instalem esses sistemas.

3. Ausência de Válvulas de Isolamento de Emergência Remotamente Operadas (ROEVs)

As ROEVs são usadas para isolar o conteúdo dos tanques de armazenamento de superfície de equipamentos associados, como bombas, em caso de vazamento.

O problema: Nenhum dos tanques envolvidos no incêndio estava equipado com ROEVs. O Tanque 80-8 possuía uma válvula manual, mas esta não pôde ser acessada com segurança uma vez que o fogo tomou a área.

O resultado: Como a válvula não pôde ser fechada remotamente, o líquido inflamável continuou a fluir do tanque através da bomba danificada, alimentando o fogo que se alastrava. A instalação de ROEVs garantiria que os vazamentos pudessem ser interrompidos de forma rápida e segura a partir de um local remoto, mitigando incidentes maiores.

4. Deficiências no Projeto do Parque de Tanques (Tank Farm Design)

O projeto do parque de tanques, embora estivesse em grande parte em conformidade com os requisitos mínimos da NFPA 30 (Código de Líquidos Inflamáveis e Combustíveis) vigentes no momento da construção:

O problema: Elementos do projeto dificultaram o controle inicial do fogo e permitiram que ele se propagasse para outros 14 tanques dentro da mesma área de contenção. Isso incluiu tanques muito próximos e a falta de subdivisões dentro da área de contenção.

O resultado: A mistura de produtos, espuma de combate a incêndio e água contaminada acumulou-se e acabou rompendo parcialmente a parede de contenção secundária do terminal, causando contaminação massiva dos cursos d’água locais, incluindo o Houston Ship Channel.

Melhores Práticas: A CSB notou que, embora a NFPA 30 defina requisitos mínimos, orientações voluntárias da indústria (como as do API e FM Global) fornecem critérios mais robustos para o design e espaçamento de parques de tanques.

5. Isenções Regulatórias (PSM e RMP)

O último e mais sério fator que contribuiu para a magnitude do incidente foram as isenções regulatórias federais.

Isenção PSM (OSHA): Tanques de armazenamento atmosférico, como o Tanque 80-8, são isentos da norma de Gerenciamento de Segurança de Processo (PSM) da OSHA. Se o PSM se aplicasse, a ITC teria sido obrigada a ter um programa formal de Integridade Mecânica para a bomba e teria que rastrear e resolver a recomendação de detecção de gás de 2014. A CSB acredita que essa isenção deve ser eliminada.

Isenção RMP (EPA): A regra de Gerenciamento de Risco (RMP) da EPA também não se aplicava ao Tanque 80-8 porque a mistura de Naphtha e Butano tinha um grau de inflamabilidade NFPA 3, e a regra só se aplica a materiais com grau 4. A CSB demonstrou que materiais classificados como NFPA 3 causaram explosões e incêndios significativos e recomendou que o EPA expandisse a cobertura do RMP para incluir todos os líquidos inflamáveis com classificação NFPA 3 ou superior.

Essas isenções removeram salvaguardas cruciais, como detecção de gás inflamável e equipamento de isolamento remoto, que poderiam ter rapidamente identificado e interrompido o vazamento.

Conclusão: A Lição Crucial para a Segurança de Processo

O incêndio da ITC Deer Park é um lembrete vívido de que a segurança de processo é um sistema interligado. A falha em um componente (como um rolamento da bomba) pode se tornar um desastre ambiental se não houver camadas de proteção subsequentes (como detecção, isolamento e Integridade Mecânica robusta).

Seu Desafio: Não se contente apenas com os requisitos mínimos dos códigos.

• Implemente programas formais de Integridade Mecânica que cubram todos os equipamentos críticos em serviço de substâncias perigosas, independentemente de estarem listados em regulamentações específicas.

• Invista em detecção de gás inflamável e monitoramento de equipamentos para alertar os operadores antes que um pequeno vazamento se torne uma nuvem de vapor inflamável.

• Garanta a capacidade de isolamento rápido e seguro, instalando Válvulas de Isolamento de Emergência Remotamente Operadas (ROEVs).

A CSB está trabalhando para expandir a supervisão regulatória desses produtos químicos e instalações. Até que isso se concretize, cabe aos engenheiros de processo e segurança garantir que as melhores práticas da indústria sejam adotadas para proteger pessoal, propriedade e o meio ambiente.

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Referências

USCSB. Terminal Failure: Fire at ITC. [S.l.]: US Chemical Safety and Hazard Investigation Board (CSB), 2020. Vídeo. Disponível em: https://youtu.be/ReYsPKwVy64?si=ZZg5CsJ3xFMFvKBe

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