Fogo no Espaço Confinado

Falhas de trabalho a quente (Hot Work) e SimOps na Tragédia da Evergreen Packaging

O que acontece quando uma pistola de calor (soprador térmico), uma resina inflamável e a falta de comunicação se encontram em um espaço confinado? Em 21 de setembro de 2020, dois trabalhadores terceirizados morreram em um incêndio na fábrica da Evergreen Packaging, em Canton (Carolina do Norte, EUA). O incidente, investigado pelo U.S. Chemical Safety Board (CSB), revelou falhas críticas de gestão em Trabalho a Quente (Hot Work), Espaços Confinados e Operações Simultâneas (SimOps).

Para engenheiros de processo, manutenção e gestores industriais, o caso Evergreen é um lembrete contundente: a combinação de fontes de ignição, materiais combustíveis e coordenação deficiente pode transformar uma simples manutenção em uma tragédia fatal.


1. O Contexto da Parada de Manutenção

Durante uma parada planejada em setembro de 2020, dois contratados atuavam em torres interconectadas:

  • Blastco: realizando reparos internos na Upflow Tower;
  • Rimcore: executando trabalhos na Downflow Tower.

Ambas as torres estavam ligadas por um tubo de grande diâmetro, o que efetivamente as tornava um único espaço confinado interconectado. A Blastco aplicava revestimentos de Plástico Reforçado com Fibra (FRP) utilizando resina éster vinílica epóxi — altamente inflamável.


2. Falha no Reconhecimento do Perigo

Em uma madrugada fria, a resina endurecia lentamente, escorrendo pelas paredes internas. Para acelerar o processo de cura, os trabalhadores da Blastco utilizaram uma pistola de calor elétrica dentro da torre. Às 5h15, o equipamento caiu em um balde de resina inflamável, iniciando um incêndio violento.

2.1. Omissão de Permissão de Trabalho a Quente (Hot Work)

O erro central foi o não reconhecimento da pistola de calor como Hot Work. O CSB destacou:

  • Ignorância da Fonte de Ignição: os trabalhadores não consideraram o aquecedor como trabalho a quente por não gerar chama visível;
  • Temperaturas Críticas: a pistola alcançava valores superiores ao ponto de flash e à temperatura de autoignição da resina;
  • Ausência de Permissão: sem identificação formal de Hot Work, as medidas de controle e isolamento não foram aplicadas.

Se o equipamento tivesse sido corretamente classificado, os próprios procedimentos da empresa proibiriam o uso de aquecedores dentro de espaço confinado com material inflamável.

2.2. Falha no Planejamento de Trabalho (Pre-Job Planning)

O CSB apontou também deficiências de planejamento. O uso de pistolas de calor foi uma decisão improvisada. A Blastco dispunha de bandas de aquecimento de tambor que poderiam ter aquecido a resina externamente e de forma segura, mas o equipamento não foi listado no plano de trabalho.

Um guia de solução de problemas ou o adiamento do serviço até condições climáticas mais favoráveis teriam prevenido o incêndio.


3. Espaços Confinados e Operações Simultâneas (SimOps)

O fogo na Upflow Tower propagou-se rapidamente pelo tubo de conexão até a Downflow Tower, onde os trabalhadores da Rimcore foram asfixiados pela fumaça. Essa propagação revelou falhas sérias em políticas de Espaço Confinado e de coordenação entre contratados.

3.1. Falhas no Controle de Espaços Confinados

As duas torres exigiam permit-required confined space entry. As normas da OSHA determinam que a entrada deve ser encerrada ao surgirem condições perigosas, o que inclui fontes de ignição. A Blastco não reconheceu a pistola de calor como risco e continuou o trabalho, violando seu próprio procedimento.

3.2. Ausência de Programa de SimOps

A Evergreen, como proprietária da planta, e as contratadas trataram os espaços como independentes, sem coordenação entre atividades simultâneas. Na prática, as torres eram um único sistema interconectado. O CSB classificou o evento como falha em Operações Simultâneas (SimOps).

Um programa SimOps eficaz teria:

  • identificado a interligação física dos vasos;
  • coordenado o cronograma de entrada e isolamento;
  • avaliado riscos cruzados entre empresas e implementado barreiras administrativas.

3.3. Materiais Combustíveis e Propagação do Incêndio

O revestimento interno de FRP (fiberglass-reinforced plastic) foi determinante para a propagação do fogo. O CSB constatou que o volume de resina no balde era insuficiente para o incêndio observado — o FRP do vaso e do tubo de conexão serviu como combustível estrutural, acelerando a liberação de fumaça e calor.


4. Conclusão: A Responsabilidade Inegociável do Proprietário

O incêndio na Evergreen Packaging foi totalmente evitável. O CSB recomendou à OSHA mudanças importantes:

  1. Análise de Riscos Induzidos pelo Trabalho: exigir avaliação de riscos criados pela própria execução da tarefa dentro de espaços confinados.
  2. Coordenação de SimOps: tornar obrigatória a coordenação entre múltiplos contratados sob a responsabilidade do proprietário.

O caso Evergreen reforça um princípio central da Segurança de Processo: o dever de controle e integração de riscos é do proprietário da instalação, mesmo quando o trabalho é executado por terceiros.

Em Hot Work e SimOps, a ausência de coordenação não é apenas falha administrativa — é um gatilho de desastre.

Chamada Técnica à Ação

  • 🔹 Reclassifique todas as fontes de calor (inclusive pistolas, secadores e ferramentas elétricas) como possíveis trabalhos a quente.
  • 🔹 Implemente um Programa SimOps formal para coordenação de contratados e atividades simultâneas.
  • 🔹 Atualize seus procedimentos de espaço confinado com critérios para interrupção imediata de entrada ao surgirem riscos não planejados.
  • 🔹 Substitua materiais combustíveis (FRP) em aplicações críticas por alternativas resistentes ao fogo ou com barreiras de isolamento térmico.

Referências

  • USCSB – U.S. Chemical Safety Board. Simultaneous Tragedy: Fire at Evergreen Packaging. [S.l.]: USCSB, 2020.

Tags: segurança de processo, Hot Work, espaço confinado, SimOps, CSB, Evergreen Packaging, OSHA 1910.146, contratados, PSM

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