Mobilidade elétrica e o risco não gerenciado

Essa semana, li uma publicação muito interessante no linkedin que falava sobre a mudança que um modelo de bicicleta trouxe na vida dos holandeses. Durante a leitura o primeiro tema que veio na minha cabeça foi: Gerenciamento de mudança (MOC).

As fat bikes surgiram com uma proposta positiva: ampliar a mobilidade ativa, reduzir emissões e facilitar deslocamentos urbanos. No entanto, a evolução rápida do conceito (maior potência, velocidades elevadas, facilidade de modificação e acesso por públicos não preparados) ocorreu sem uma avaliação sistêmica adequada dos riscos. O resultado foi um aumento significativo de acidentes graves, impacto direto sobre grupos vulneráveis (crianças e idosos) e a necessidade de medidas regulatórias reativas, muitas vezes impopulares.

Do ponto de vista técnico, não se trata de uma falha pontual, mas de uma mudança de sistema: alteração de velocidades operacionais, perfis de usuários, interfaces homem–máquina e condições de contorno do tráfego urbano. Em termos industriais, esse cenário seria inequivocamente classificado como uma mudança que exigiria MOC formal.


O paralelo direto com o setor industrial

Na indústria de processo, acidentes maiores raramente decorrem de falhas totalmente desconhecidas. Eles surgem, com frequência, de mudanças aparentemente benignas, tais como:

  • aumento de capacidade produtiva;
  • substituição de equipamentos ou materiais;
  • alterações de lógica de controle;
  • flexibilização de limites operacionais;
  • mudanças organizacionais ou de perfil de operadores.

Quando essas modificações são implementadas sem uma análise estruturada, cria-se exatamente o que os especialistas em segurança chamam de latent conditions — condições latentes que permanecem invisíveis até que uma combinação desfavorável de fatores resulte em um evento grave.

O caso das fat bikes ilustra de forma clara esse fenômeno: a tecnologia evoluiu mais rápido do que os mecanismos de controle, capacitação e fiscalização. O mesmo ocorre em plantas industriais quando a inovação tecnológica não é acompanhada por revisão de análises de risco, procedimentos e competências.


Gestão da Mudança: muito além de um requisito burocrático

A MOC é frequentemente percebida como um entrave administrativo. Contudo, sua função real é preservar o entendimento do risco ao longo do tempo, garantindo que o sistema permaneça dentro de uma zona operacional segura mesmo após modificações.

Uma MOC robusta deve responder, de forma objetiva, a questões como:

  • O que está sendo alterado e por quê?
  • Quais perigos novos são introduzidos ou amplificados?
  • As salvaguardas existentes permanecem válidas?
  • Há impacto sobre fatores humanos, treinamento e tomada de decisão?
  • A mudança altera premissas de HAZOP, LOPA ou estudos de consequências?

No contexto urbano, Amsterdã está sendo forçada a responder a essas perguntas a posteriori, após o aumento de acidentes. Na indústria, o custo dessa abordagem reativa pode ser catastrófico: perdas humanas, ambientais, financeiras e reputacionais.


Aprendizado transversal: segurança é sistêmica

O principal aprendizado que conecta a micromobilidade elétrica ao setor industrial é que segurança não é inerente à tecnologia, mas sim à forma como ela é integrada ao sistema. Velocidade, potência e acessibilidade são variáveis técnicas; comportamento humano, fiscalização e capacitação são variáveis organizacionais. Ignorar qualquer uma delas compromete o todo.

Assim como cidades precisam rever limites, exigir capacitação e impor controles técnicos às fat bikes, plantas industriais precisam tratar qualquer mudança técnica ou organizacional como um potencial iniciador de acidentes maiores.


Conclusão

O alerta de Amsterdã não é apenas um debate sobre bicicletas elétricas. É um exemplo concreto de como a ausência de gestão estruturada da mudança transforma benefícios potenciais em riscos reais. Para profissionais de segurança de processo, a mensagem é clara: MOC não previne apenas desvios operacionais; ela preserva a integridade do sistema frente à evolução industrial que é inevitável.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *